quarta-feira, 20 de junho de 2012

dois abraços para nenhum abrigo (ou: o poema que eu fiz para não esquecer)


antes sequer de nos termos à primeira vista,

com uma das mãos tu me puxou ao revés.

e foi assim que de repente findou-se o pacto

de ter te olhado todos os dias sem jamais antes ter te visto.


e tu me coçou a orelha mais que uma só vez,

andando com o teu braço fácil sobre meu ombro, por ser maior,

como quem acolhe, diz, e confirma:

não queira acordar, meu amigo, há também sonhos feitos de carne e osso.


e em mim era a sensação plena de carinho

feito em cachorro por um pé calçando tênis:

uma carícia nunca com conforto,

embora sempre de um gesto amável.


tu me trouxe algo de comer,

pouco e nas tuas próprias mãos,

e comi calmo como cão que pega de mão qualquer

sem o risco de qualquer apego.


porque fugi dos meus maiores cômodos de afeto,

sem ser necessário ao menos o ato de ladrar,

e voltei de mansinho para te admirar da porta

sem mais ansiar por atravessar pra dentro.


pude te ver dormir como se me pertencesse,

ouvindo com meus olhos teu coração bater

numa saliente veia azulada do pescoço.

e talvez ali tu sonhava um bonito sonho

em que não mais me doía nunca estar.


e teus cabelos dourados e limpos,

mais frescos que qualquer campo de trigo,

já não eram mais o terreno firme onde um dia

meus dedos sonharam percorrer e procurar tesouros,


embora ao meu toque tenham ainda sido

as mais suaves e belas mechas,

como a parte mais macia da sobra

de uma miragem acostumada.


eu pude sorrir e acordar te desejando bons dias sinceros,

relembrar coisas boas do que estava logo ali e já era passado,

dedicar carícias aos teus ouvidos com o ruído do meu riso e nada mais,

e não querer morrer no momento de nossa primeira despedida rasa.


pois tu, que por tanto tempo carregou o destino

de ser o dono dos ganidos do meu peito,

foi justamente aquele que, chegando,

de mim já havia partido.




e haverá ainda quem me condene de monstro ser,

ou de amargo estar, sem se dar conta de que finalmente

tenho posse de um troféu inabalável:


amar somente como amigo o rapaz que

como único homem eu havia amado.

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